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Thomas: HAMLET (Opéra-Comique, 2018)


Os românticos franceses reconheceram Shakespeare como um dos seus, como um romântico avant la lettre quase tão distante no tempo quanto os Antigos para os renascentistas. A ópera inspirou-se muito em Shakespeare e Hamlet, de Thomas, é umas adaptações mais polémicas do bardo inglês. No entanto, é óbvio que Thomas e os seus libretistas interessaram-se mais pelo mito de Hamlet do que pela tragédia de Shakespeare. A ópera parece-se de facto com muitas óperas da mesma época, tendo sido concebida dentro do género francês em voga da grand opéra, apesar de ser particularmente intimista e reflexiva o que entra em contradição com as prioridades da grand opéra. Hamlet não é hoje muito representada mas foi no século xix uma das óperas mais populares. A atual produção da Opéra-Comique é muito boa. A encenação é moderna, com extenso recurso ao vídeo, e há papéis que vêm a calhar para consagrar os grandes cantores franceses da nova geração como Stéphane Degout (Hamlet) e Sabine Devieilhe (Ophélie). O público aplaudiu-os efusivamente. Não fiquei convencido da qualidade excecional de Hamlet, mas gostei muito de ter visto este espetáculo. Direção musical de Louis Langrée, mise en scène de Cyril Teste, Choeur e Orchestre des Champs-Élysées. Paris 12.2018 Opéra-Comique 3,5/5

Intérpretes: Stéphane Degout (Hamlet), Sabine Devieilhe (Ophélie), Sylvie Brunet-Grupposo (Gertrude), Jérôme Varnier (Le Spectre), Laurent Alvaro (Claudius), Julien Behr (Laërte), Kevin Amiel (Marcellus, 2ème Fossoyeur), Yoann Dubruque (Horatio, 1er Fossoyeur),  Nicolas Legoux (Polonius).

PORGY AND BESS (1935)

A English National Opera apresenta pela primeira vez a folk opera de Gershwin, Porgy and Bess, Uma estreia auspiciosa, que vai certamente levar à sua reposição no mesmo teatro num futuro próximo. Conhecia bem os hits desta obra (Summertime...), mas não fazia ideia do sentido dessas canções no argumento da ópera. Por exemplo, Summertime abre o musical como uma canção de ninar... Surpreendeu-me a personagem (negativa) de Bess... Porgy, o vagabundo deficiente, é o grande apaixonado da história, e também o mais infeliz, já que depois de conquistar Bess é por duas vezes traído por ela... Londres 11.2018 ENO 4/5
Com John Wilson (maestro) e James Robinson (encenador). Elenco: Eric Greene (Porgy), Nicole Cabell (Bess), Nadine Benjamin (Clara), Crown (Nmon Ford), Latonia Moore (Serena), Tichina Vaughn (Maria), Nozuko Teto (Strawberry Woman), Frederick Ballentine (Sporting Life).

La fille de neige (Snegourotchka, 1882)

La fille de neige (Snegourotchka, 1882) é uma ópera rara, mesmo sendo a preferida do compositor russo, Rimsky-Korsakov. Em Paris, pelo que li, foi apresentada na Opéra-Comique em 1908, no Théâtre des Champs-Elysées 1929 e agora na Bastille. Não sei se veio para ficar, mas não será por falta de qualidade desta nova produção. A encenação de Dmitri Tcherniakov é um encanto do princípio ao fim e a protagonista é uma nova estrela do universo lírico: Aida Garifullina. La fille de neige é, na verdade, filha do Gelo e da Primavera, e está condenada a desaparecer quando se apaixonar. De um conto tradicional russo, Rimsky-Korsakov escreveu uma ópera muito bela, com uma orquestração superior. Paris 04.2026 Bastille 4/5

Only the Sound Remains (Kaija Saariaho, 2016)

Este mês deu-se a criação francesa de Only the Sound Remains, a última ópera de Kaija Saariaho, na Opéra de Paris (Palais Garnier). A ópera foi originalmente criada em Amsterdão em 2016, com o mesmo encenador (Peter Sellars) e os mesmos intérpretes (Philippe Jaroussky e Davóne Tines). A ópera compõe-se de duas partes, Always Strong e Feather Mantle (o libreto é em inglês), e inspira-se em duas peças do teatro Nô japonês (Tsunemasa e Hagoromo) e o libreto tem textos de Ezra Pound e Ernest Fenollosa. Tratou-se de um belo espetáculo, despojado, aliás como a própria música de Saariaho, que utiliza a amplificação electrónica para sublinhar o carácter etéreo da composição instrumental assim como vocal. Não é uma ópera a revisitar, e esse é o seu principal limite. Interessou-me enquanto durou o espetáculo, mas afastada da tradução visual e performativa, qual será o valor desta música? Paris 01.2018 Palais Garnier 3/5
Peter Sellars, encenação
Ernest Martínez Izquierdo, direção musical
com 
Philippe Jaroussky (Spirit, Angel) 
Davóne Tines (padre, pescador)
Opera Garnier 2018

TROUBLE IN TAHITI (1952)

Trouble in Tahiti é uma ópera breve (um único ato, menos de uma hora de duração) com música e libreto de Leonard Bernstein. Narra um dia na vida de um jovem casal, com um filho, mergulhados em plena crise sentimental. O amor desertou o quotidiano de Sam (Laurent Deleuil) e Dinah (Éléonore Pancrazi): ele refugia-se no trabalho, onde é um vencedor, ela nos filmes e nas sessões com o psicanalista. Nesse dia nenhum deles comparece na festa escolar do filho, ele preferiu o desporto com os amigos, ela o escape do cinema, onde vê o filme Trouble in Tahiti. O mais curioso é que foi em plena lua de mel que Bernstein concebeu este retrato de casal de subúrbio afogado nas suas ilusões de juventude... A produção que acabo de ver no Théâtre de l'Athénée é tão boa que não só me deu a conhecer esta ópera como me fez amá-la logo à primeira.
A abrir a noite foi apresentada Manga-café, em criação absoluta, uma ópera breve com um só ato com música e libreto de Pascal Zavaro. Totalmente contemporânea, pelo menos no argumento. Um jovem nerd, muito tímido, passa os dias nas redes sociais, e é estimulado pelos amigos internautas a marcar encontro com uma miúda. Não me imagino a ouvir esta ópera em casa, mesmo em vídeo (afirmação que generalizo a muitas óperas contemporâneas), mas como espetáculo cénico e musical esteve tudo muito bem. As duas óperas foram encenadas por Catherine Dune e contaram com o pequeno conjunto Les Apaches dirigidos por Julien Masmondet. Paris 06.2018 4/5
Catherine Dune
(encenação)
Julien Masmondet
(direção musical) 
& 
Ensemble Les Apaches
Os cantores
Éléonore Pancrazi 
Laurent Deleuil
Morgane Heyse
André Gass
Philippe Brocard

IOLANTHE (1882)

Iolanthe é uma das Savoy operas de Gilbert & Sullivan. É uma fábula onde fadas e homens se unem para celebrar a união entre dois jovens, Iolanthe e Strephon, sendo este metade fada metade humano. Esta nova produção convenceu-me completamente do mérito do trabalho de Gilbert (book & lyrics) já que a música de Arthur Sullivan me tinha conquistado à primeira. Londres 02.2018 Coliseum 4/5
English National Opera
Timothy Henty (Direction) 
Cal McCrystal (Metteur en scène)
com
Samantha Price (Iolanthe)
Llio Evans (Celia) 
Ellie Laugharne (Phyllis) 
Joanne Appleby (Leila) 
Yvonne Howard (Queen of the Fairies) 
Andrew Shore (The Lord Chancellor) 
Ben Johnson (Earl Tolloller) 
Ben McAteer (Earl of Mountararat) 
Marcus Farnsworth (Strephon) 
Barnaby Rea (Private Willis)

LA VOIX HUMAINE (1955)

A OBRA (Poulenc)

TÍTULO La Voix Humaine (tragédia lírica em um acto) LIBRETO Jean Cocteau  COMPOSITOR Francis Poulenc CRIAÇÃO Paris: Salle Favart 1959, por Denise Duval

O ESPETÁCULO (TCE, 2026)



Patricia Petibon (Elle), Orchestre National de France, dir. Ariane Matiakh VISTO Paris 15.03.2026 Théâtre des Champs-Élysées 

O ESPETÁCULO (P. Ganier, 2018)

John Relyea (Le Duc Barbe-Bleue) & Ekaterina Gubanova (Judith)
Este espetáculo que une La Voix humaine (Poulenc, 1955) a Bluebeard's Castle (Bartók, 1918), sem descontinuidade, é uma das joias da Opéra de Paris, onde foi criado em 2015. O grande mago responsável por tão ousada e satisfatória encenação é Krzysztof Warlikowski, que compreendeu bem as linhas que cosem as duas obras. O sofrimento e a solidão feminina resultantes da dependência de uma mulher face a um homem são temas que percorrem as duas breves óperas. Destacaria por isso as duas fantásticas cantoras que encarnaram Judith (Ekaterina Gubanova) e Ela (Barbara Hannigan). Muito bom. Paris 04.2018 Palais Garnier 4/5
Barbara Hannigan

O ESPETÁCULO (P. Ganier, 2015)
A nova produção da Ópera de Paris tem claramente a marca do encenador escolhido, Krzysztof Warlikowski. Duas óperas maiores do século XX irmanadas num espetáculo sem intervalo. Le château de Barbe-Bleue (Bartok) e La voix humaine (Poulenc) têm ambas uma mulher como protagonista, que sofre terrivelmente por amor. Uma mulher cujo amor vai sendo abalado à medida que o marido vai revelando o terrível segredo por trás de cada porta do seu castelo (Bartok) e outra que não sobrevive ao abandono definitivo do seu amante (Poulenc). O amor e a morte de mãos dadas nas duas óperas. Quando as opções de encenação são claras e inteligíveis como neste caso a interpretação tem as condições ideais para brilhar, como aconteceu com as duas cantoras. Prefiro o partitura de Bartok pelo tecido instrumental contínuo e fluído que faz lembrar as obras de Wagner e o elemento vocal em Poulenc, pela potencialidade dramática que encerra e que atrai como um íman todas as cantoras-atrizes. São obras que não ouço em disco (sobretudo a de Poulenc vive mal sem o palco) mas que encenadas tornam-se poderosas. Paris 12.2015 Palais Garnier 4/5


O ESPETÁCULO (PV Garrett, 2015)
La voix humaine (1955) é uma das obras líricas mais belas do século XX. Composta por Francis Poulenc a partir de um libreto de Cocteau, tem atraído as maiores atrizes e cantoras, seduzidas por este monólogo feminino que oscila entre o canto e a fala para exprimir o abandono de uma mulher pelo seu amante. Raquel Camarinha foi a protagonista desta produção com acompanhamento de piano. Com um francês perfeito, teve uma abordagem cool do papel, sem a dramaticidade extrema que o texto permite. Gostei muito. Póvoa de Varzim 07.2015  4/5

RODELINDA (1725)

Tim Mead
Uma ópera em versão de concerto absolutamente maravilhosa. Uma das obras-primas de Handel. Com pontos altos, justamente ovacionados, como a ária Vivi tiranno (Bertarido) e o dueto Io t'abbraccio (Rodelinda & Bertarido). A história, como era habitual na ópera barroca, inspira-se na antiguidade clássica e tem como personagens os governantes. Rodelinda, rainha, pensa ter perdido o marido, desaparecido, e sob chantagem aceita casar-se com o novo rei. O rei deposto aparece, recupera o trono e a rainha e tudo acaba em paz. No espetáculo brilhou em particular o contra-tenor Tim Mead (Bertarido). Mas todo o elenco foi muito aplaudido. Paris 12.2018 (Théâtre des Champs-Elysées) 4,5/5
Emmanuelle Haïm com o Concert d'Astrée. Cantores : Jeanine De Bique (Rodelinda), Tim Mead (Bertarido), Benjamin Hullet (Grimoaldo), Romina Basso (Eduige), Andrea Mastroni (Garibaldo), Paul-Antoine Bénos-Djian (Unulfo)

BIBLIOTECA:

Programme Rodelinda
Chatelet janvier 2002

LES HUGUENOTS

Les Huguenots (Meyerbeer, 2018)
Les Huguenots, de Meyerbeer, é um dos maiores exemplos da Grand Opéra, género francês do período do Romantismo oitocentista, que apostava nas figuras e acontecimentos históricos para enquadrar histórias românticas (e outras). Les Huguenots conta a paixão entre um protestante (Raoul de Nangis) e uma católica (Valentina) nos dias que antecederam o sangrento ataque aos protestantes conhecido por São Bartolomeu. Um dos grandes trunfos desta ópera é mesmo o argumento e o libreto (de Eugène Scribe e Émile Deschamps) assim como a própria música de Giacomo Meyerbeer. O espetáculo da Bastille é grandioso e merece tirar do esquecimento em que ficou durante décadas desta ópera tão famosa. Paris 10.2018 Opéra Bastille 4/5
Michele Mariotti e Łukasz Borowicz (direção musical)
Orquestra e Coro da Opéra National de Paris
Andreas Kriegenburg (mise en scène)
com
Lisette Oropesa (Marguerite de Valois), Yosep Kang (Raoul de Nangis), Ermonela Jaho (Valentina), Karine Deshayes (Urbain), Nicolas Testé (Marcel), Paul Gay (Le Comte de Saint-Bris)

ORPHÉE ET EURYDICE

Orphée et Eurydice é uma ópera curta mas rica em melodias inesquecíveis cantadas pelos protagonistas (sobretudo Orfeo) e pelo coro. Sem dúvida uma das óperas com mais páginas interessantes escritas para coro. Orfeo, de Gluck, tem felizmente várias versões (em italiano e em francês, nomeadamente) e foi escolhida para esta produção da Opéra-Comique a versão de Hector Berlioz (1859). O elenco é o elemento mais notável da produção: Marianne Crebassa (Orphée), Hélèle Guilmette (Eurydice) e Lea Desandre (Amour). Paris 10.2018 Opéra-Comique 4/5 
Raphaël Pichon (direção musical) 
& 
Ensemble Pygmalion (orquestra e coro)
Aurélien Bory (mise en scène)

ORPHÉE
Avant-Scène Opéra n° 192
sept-oct 1999
BIBLIOTECA F

THE RAPE OF LUCRETIA (1946)

A primeira ópera de câmara de Britten, The Rape of Lucretia (1946), foi apresentada no Teatro Nacional de São Carlos em dezembro de 2017, e no Teatro Nacional d São João, no Porto, em janeiro de 2018. Uma bela produção feita com a prata da casa.
João Paulo Santos, direção musical
Luis Miguel Cintra, encenação
com 
Marco Alves dos Santos (Coro Masculino)
Dora Rodrigues (Coro Feminino)
Luís Rodrigues (Collatinus)
Christian Luján (Junius Brutus)
André Baleiro (Tarquinius)
Maria Luísa de Freitas (Lucretia)
Ana Ferro (Bianca)
Joana Seara (Lucia)

JEPHTHA (1751)

Jephtha é um oratório bíblico de Handel que foi há pouco tempo encenado (por Claus Guth) no Palais Garnier. Conta a história do rei Jephtha que tem de sacrificar a sua filha Iphis. Mas o que importa aqui é a prestação dos cantores que têm a oportunidade de brilhar quando interpretam Handel. O trio de protagonistas é excelente, com destaque para Ian Bostridge, que conheço bem dos discos de lieder mas nunca tinha visto em palco, parece-me. Excelente. Paris 02.2018 Palais Garnier 4,5/5
Claus Guth (mise en scène) 
William Christie (maestro) 
Orchestre et Choeur des Arts Florissants
com
Ian Bostridge (Jephtha)
Marie-Nicole Lemieux (Storgé)
Katherine Watson (Iphis)
Tim Mead (Hamor)
Philippe Sly (Zebul)
Valer Sabadus (Angel) 

LA CENERENTOLA (1817)

A OBRA (Rossini, 1817)

O ESPETÁCULO (Garnier, 2018)

A encenação deste espetáculo não é memorável, bem pelo contrário, mas o seu grande trunfo é permitir ver e ouvir Marianne Crebassa no papel de Angelina, a gata borralheira. Cada vez mais Crebassa se afirma como uma grandes cantoras da nova geração. Paris Palais Garnier 3/5
La Cenerentola, TCE 12/2018, Evelino Pidò (direção), Guillaume Gallienne (encnação), com Marianne Crebassa (Angelina ou Cenerentola), Alessandro Corbelli (Don Magnifico), Lawrence Brownlee (Don Ramiro), Florian Sempey (Dandini), Adam Plachetka (Alidoro), Chiara Skerath (Clorinda), Isabelle Druet (Tisbe)

O ESPETÁCULO (TCE, 2018)

O lugar de La Cenerentola, de Rossini, a sua segunda ópera mais apresentada nos palcos mundiais, é mesmo o palco. É uma ópera que precisa de ser vista, mesmo numa versão de concerto como a que  vi esta semana no Théâtre des Champs-Elysées. Os cantores--atores deram-se de tal modo ao jogo do teatro que esquecemos que falta um metteur en scène. Para quê? Até o maestro e os músicos contribuíram para o divertimento que ocorria no palco e mexia com o público. No final, toda a equipa foi ovacionada. Já tinha visto Karine Deshayes no papel da Cenerentola, e agora  ela confirma mais uma vez que é uma das grandes Angelinas de hoje. Foi uma grande noite de teatro musical. Paris 06.2018 4,5/5
Produção doThéâtre des Champs-Elysées, 
Enrique Mazzola (direção) 
Orchestre National d’Ile-de-France
Ensemble Aedes 
(direção de Mathieu Romano)
Elenco: Karine Deshayes (Angelina ou la Cenerentola), Peter Kálmán (Don Magnifico), Cyrille Dubois (Don Ramiro), Vito Priante (Dandini), Luigi de Donato (Alidoro), Hasmik Torosyan (Clorinda), Alix Le Saux (Tisbe)

O ESPETÁCULO (2016)
Ontem fui à Ópera de Roma ver La Cenerentola... sem sair de Paris! Por isso é que eu gosto tanto das transmissões de óperas e balés em direto para as salas de cinema. Enquanto não começava a ópera propriamente dita, podemos ver o tout-Rome a chegar e a instalar-se no teatro (os camarotes parecem bem austeros e despidos, comparados com os do Palais Garnier). Quanto ao espetáculo, só posso dizer mal da cenografia, encenação e direção de atores. La Cenerentola é uma peça cômica do princípio ao fim mas os responsáveis da encenação, etc., acharam por bem sublinhar a traço grosso,  com imensas caretas e trejeitos, essa comicidade. O palco encheu-se de bonecos-robô saídos do filme de Woody Allen (Sleeper, 1973). Suponho que representavam os servos da altura (como a própria Cinderela, uma falsa serva, como a escrava Isaura). Visto num ecrã de cinema, com planos aproximados, tudo era um tanto grotesco. Adiante. Mas a música de Rossini supera tudo, mesmo quando os cantores são apenas competentes. É pelo menos a terceira vez que vejo La Cenerentola, mas não me canso de ouvir a abertura (uma das melhores de sempre) e as melhores cenas sobretudo as cenas de conjunto. Paris 01.2016: 4/5

LA NONNE SANGLANTE (1854)

Esta é uma daquelas óperas caídas no esquecimento depois da criação, há mais de 150 anos. Esquecimento muito injusto. Vi um espetáculo de quase três horas sem falhas maiores e sem momentos dispensáveis ou desinteressantes. Acontece por vezes aos melhores, como Wagner. La Nonne Sanglante é a segunda ópera de Gounod e foi um fracasso na estreia. A ópera deve tudo ao romantismo da época. Adapta uma história de Lewis Monk, pioneiro da literatura gótica, e inspira-se numa adaptação teatral francesa desse romance. Conta a história de um fantasma, o espírito de uma mulher morta pelo amante e que não deixa os vivos em paz enquanto não for vingada. Vai assim separar dois amantes e utilizar o noivo para vingar o crime passado. A grande estrela deste grande espetáculo é Michael Spyres no protagonista masculino, um papel difícil que ele serve de forma superior. Na verdade, gostei de tudo, sendo o equilíbrio o grande trunfo desta produção da Opéra-Comique. Até a encenação, tantas vezes a má da fita, deixa boa memória. A Opéra-Comique continua a assegurar um serviço público digno de nota. Paris 06.2018 OC 5/5

Direção musical: Laurence Equilbey & Insula Orchestra, Choeur Accentus. Mise en scène: David Bobée. 
Cantores: Michael Spyres, Vannina Santoni, Marion Lebègue, André Heyboer, Jodie Devos, Jean Teitgen, Luc Bertin-Hugault, Enguerrand De Hys, Olivia Doray

BORIS GODUNOV (1869)

A OBRA (Mussorgski, 1869)

O ESPETÁCULO (Bastille, 2018)

Boris Godounov é uma das obras mais representativas da Arte russa. Talvez seja mesmo a ópera mais amada dos russos. Trata de um Tsar do século 16, Boris Godounov, sobre o qual corria o boato de ter assassinado uma criança para chegar ao trono. A ópera centra-se no drama íntimo de Boris, atormentado pelo crime que talvez nunca cometera ou cometeu e reprimiu no inconsciente. Foi a primeira vez que vi ou ouvi esta ópera e gostei muito, mas é preciso ouvi-la várias vezes para gostar a sério desta obra. Esperava algo de mais faustoso e de um Boris velho e cansado (como se vê nas fotos de Christoff e Ghiaurov, que marcaram o papel no século XX). Mas o encenador Ivo van Hove escolheu um cenário moderno e minimalista onde domina uma escadaria no centro, que desce para baixo da terra. O poder, mesmo absoluto, é frágil, e pode facilmente ir-se abaixo. Assim acontece com Boris, o Tsar. Para o interpretar Idar Abdrazakov é a boa opão. Jovem e bem parecido, estreia-se agora neste papel mítico e só poderá melhorar com a experiência. O papel exige amadurecimento do cantor, que permita exprimir os dilemas interirores do personagem. Paris 06.2018 Bastille/cinema 4/5
Boris Godunov (Mussorgsky)
versão original de 1869
Ivo van Hove (encenação)
Vladimir Jurowski (direção musical)
com
ldar Abdrazakov (Boris)
Evdokia Malevskaya (Fiodor)
Ruzan Mantashyan (Xénia)
Maxim Paster (Chouïsky)
Boris Pinkhasovich (Chtchelkalov)
Mikhail Timoshenko (Mitioukha)
Ain Anger (Pimène), Dmitry Golovnin (Grigori)
Elena Manistina (aubergiste)

DISCOTECA (3)

 Ansermet1948

Karajan/1970*

Rostropovitch/1987
   CD-Livro WARNER “OPERA COLLECTION” 1996
DISCOTECA

DVDTECA 
BORIS GODUNOV (1990) ENCENAÇÃO Andrei Tarkovsky INTÉRPRETES Robert Lloyd (Boris), Alexei Steblianko (False Dmitri), Alexander Morosov (Pimen), Olga Borodina (Marina), Sergei Leiferkus (Rangoni), Yevgeny Boitsov (Shuisky), Vladimir Ognovenko (Varlaam) DIREÇÃOValery Gergiev  GRAVAÇÃO Mariinsky Theatre, St Petersburg 1990 DVDTECA DVD Philips 1993


BIBLIOTECA (2)

ASO27-28

ONP2002

PELLÉAS ET MELISANDE (1902)

A OBRA (Debussy1902)

GÉNERO Drame lyrique en cinq actes et douze tableaux COMPOSITOR Claude Debussy LIBRETO Poème de Maurice Maeterlinck CRIAÇÃO Paris 30.04.1902 l’Opéra-Comique

O ESPETÁCULO (Bastille, 2025)



PRODUÇÃO Opéra National de Paris CRIAÇÃO Paris 28.02.2025 Opéra Bastille ENCENAÇÃO Wajdi Mouawad
INTÉRPRETES Pelléas: Huw Montague Rendall, Golaud: Gordon Bintner, Arkel: Jean Teitgen, Le petit Yniold: Anne-Blanche Trillaud Ruggeri, Un Médecin: Amin Ahangaran, Mélisande: Sabine Devieilhe, Geneviève: Sophie Koch  ORQUESTRA Orchestre et Chœurs de l’Opéra national de Paris  DIREÇÃO MUSICAL Antonello Manacorda
VISTO Paris 09.03.2025 Opéra Bastille NOTA 4/5


O ESPETÁCULO (TCE, 2021) 

Uma das óperas que aprendi a amar e admirar mais a cada nova visão. 
Pelléas et Mélisande 2021, direção musical de François-Xavier Roth & Les Siècles, encenação de Eric Ruf, com Patricia Petitbon e Vannina Santoni  (Melisande), Stanislas de Barbeyrac (Pélleas), Simon Keenlyside (Golaud), Jean Teitgen (Arkel), Lucile Richardot (Geneviève), Paris 11/10/2021 TCE 4/5

O ESPETÁCULO (TCE, 2018) 
Basta uma estrela, ou uma artista excepcional (Sabine Devieilhe), para termos uma razão de assistir novamente, meses depois, a Pelléas et Mélisande, a ópera de Debussy. Foi muito bom. Paris 05.2018 Théâtre des Champs Elysées 4/5
Benjamin Levy
(direção musical)
& 
Orchestre de Chambre Pelléas
Elenco:
Sabine Devieilhe (Melisande)
Etienne Dupuis (Pélleas)
Alain Buet(Golaud)
Jérôme Varnier(Arkel)
Sylvie Brunet-Grupposo (Geneviève)
Camille Poul (Yniold)
Virgile Ancely (o médico)


O ESPETÁCULO (Bastille, 2017)

Esperei uma vida para ver Pélleas et Melisande, a obra-prima de Claude Debussy, mas este ano essa oportunidade finalmente chegou, ainda por cima a dobrar. Há meses no Théâtre des Champs-Elysées, com Patricia Petibon como Melisande, e hoje na Bastille com Robert Wilson na direção cénica. Duas excelentes produções. Mas desta vez é o encenador que leva a palma. Por uma vez, fiz questão de ouver a ópera de olhos bem abertos pois nada queria perder do que se passava no palco. Passa-se pouco (nunca vi palco mais despojado), e o movimento dos cantores é reduzido ao mínimo. Mas nada poderia ser mais expressivo do que este trabalho minimalista de Bob Wilson. A gestualidade dos cantores remete tanto para a cultura japonesa como para o movimento dos pássaros. A lentidão dos movimentos é soberana. Um dos melhores espetáculos que me foi dado a ver. Paris 10.2017 Bastille 4,5/5

O ESPETÁCULO (TCE, 2017)
Finalmente consegui ver Pélleas et Melisande, a obra-prima lírica de Claude Debussy. Parece uma mélodie ininterrupta, refinada, sensual, evanescente: uma obra em que o tecido orquestral é o centro do interesse. Esta nova produção é excelente: Eric Ruf, da Comédie Française, assina a mise en scène e a scénographie, Louis Langrée dirige a Orchestre National de France, e são excelentes os três intérpretes principais (Patricia Petibon, Jean-Sébastien Bou e Kyle Ketelsen). Paris 05.2017 TCE 4,5/5

LA TRAVIATA (1853)

O ESPETÁCULO (Bastille, 2018)

 
La Traviata resiste a qualquer encenação menos boa ou a cantores menos inspirados. Não é o caso desta produção já conhecida da Opéra Bastille, com encenação de Benoît Jacquot, e uma violeta impecável de Aleksandra Kurzak. Paris 10.2018 Bastille 4/5
Giacomo Sagripanti (maestro)
Benoît Jacquot (encenador)
Orquestra e Coro da Opéra National de Paris
com 
Aleksandra Kurzak (Violetta Valéry)
Jean-François Borras (Alfredo Germont)
George Gagnidze (Giorgio Germont)
 Virginie Verrez (Flora Bervoix)
Cornelia Oncioiu (Annina)

LUCIA DI LAMMERMOOR (1835)

O ESPETÁCULO (London Coliseum, 2018)
 
Lucia di Lammermoor em inglês! Esta foi a grande novidade da produção de David Alden (2008), agora reposta no London Coliseum. A mudança de língua não tira beleza à obra-prima de Donizetti. Afinal a ópera tem uma fonte literária britânica: o romântico Walter Scott. Londres 11.2018 ENO 3,5/5
Stuart Stratford (direção musical), com Sarah Tynan (Lucia, Enrico (Lester Lynch), Eleazar Rodríguez (Edgardo), Clive Bayley (Raimondo), Michael Colvin (Arturo), Elgan Llyr Thomas (Normanno), Sarah Pring (Alisa).

Jessica Pratt (Lucia) foi a estrela da noite e, para variar, a cena da loucura, umas mais emocionantes da história da ópera, pôs fora de si o público do TCE. Por tanto assistir a Lucia di Lammermoor, ficou sendo uma das minhas obras preferidas. Com a ópera é assim, quanto mais se assiste mais se ama.
Roberto Abbado & Orchestre National d’Ile-de-France
Paolo Fanale (Edgardo)
Luca Salsi (Enrico) 
Riccardo  Zanellato  (Raimondo)
Paris: Théâtre des Champs-Elysées 
12 de setembro de 2017

Lucia é uma das melhores obras para se descobrir (e amar) a ópera. Obra perfeita do princípio ao fim, com muitas árias memoráveis e uma cena célebre e de grande exigência: a cena de loucura de Lucia. No início estranhei a produção de Andrei Serban, demasiado viril para um drama no feminino. Camaratas militares e salas de ginástica, cordas e construções metálicas ocupam o palco o tempo inteiro. Mas a loucura e a tragédia de Lucia tem origem na repressão masculina da sociedade, o que permite entender as opções de Serban. Quanto aos cantores, todos muito bons, destaca-se o papel de Lucia. Nunca tinha vista uma cantora ser tão aplaudida como Pretty Yende na Opéra de Bastille. A star is born? Muito bom. Paris 11.2016: 4/5


FIDELIO (Beethoven, 1805)

A rentré da Opéra Comique deu-se com esta boa produção de Fidelio, a única ópera de Beethoven. Grande destaque é Michael Spyres, bem conhecido do público desta casa. Paris 2021 Ópera Comique 3,5/5

Raphaël Pichon, direção musical, Cyril Testé, encenação, com Siobhan Stagg e Michael Spyres, Chœur et orchestre Pygmalion, Opéra-Comique 11.2021

O ESPETÁCULO (TCE, 2020)

Nina Stemme
Fidelio é a única ópera de Beethoven e quando começamos a ouvi-la reconhecemos logo a marca da música sinfónica do compositor. Na verdade, é uma ópera que me interessa mais pela sua qualidade instrumental do que pelo canto. Precisamente o contrário aconteceu com La Dame Blanche, de Boildieu, que vi no dia seguinte, que me interessou sobretudo pelo (bel) canto, enquanto a componente instrumental é desinteressante. Com Beethoven, não há tempos amenos, tudo é superior. Paris 02.2020 Théâtre des Champs-Élysées 4/5
Thomas Dausgaard & Swedish Chamber Orchestra/Swedish Radio Choir, com Nina Stemme (Leonore), Johan Schinkler (Rocco), John Lundgren (Pizarro), Malin Christensson (Marzelline), Michael Weinius (Florestan), Daniel Johannsen (Jaquino) e Karl-Magnus Fredriksson (Don Fernando).


O ESPETÁCULO (TCE, 2018)

 
FIDELIO (TCE, 2018)
Finalmente descubro a única ópera de Beethoven: Fidelio! Em versão de concerto no Théâtre des Champs-Élysées. Uma história do romantismo de escola: uma mulher apaixonada disfarça-se de homem para poder ver o marido que está preso e prestes a ser morto pelo seu inimigo e responsável da sua prisão. Grandes vozes (sobretudo Michael Spyres) asseguraram uma excelente representação. Paris 11.2018 (TCE) 4/5
Giovanni Antonini dirige Kammerorchester & Basler Madrigalisten
Com 
Adrianne Pieczonka (Leonore)
Albert Dohmen (Rocco) 
Sebastian Holecek (Pizarro)
Regula Mühlemann (Marzelline)
Michael Spyres (Florestan)
Patrick Grahl (Jaquino) 
Matthias Winckhler (Don Fernando)

DISCOTECA (2)
Maazel/1964* 
Harnoncourt/ext    

BIBLIOTECA (1)
FIDELIO
L' Avant-Scène nº 164 mars-avril 1995
DISCOTECA

NT


Et in arcadia ego ( 2018)

 
Jean-Philippe Rameau & Éric Reinhardt
Et in arcadia ego é um espetáculo lírico criado a partir da música de Jean-Philippe Rameau, com livret de Éric Reinhardt, e encenado por Phia Ménard. Conta alguns momentos da vida de uma mulher (a mezzo Lea Desandre) e sobretudo o dia da sua morte. A sua despedida da vida, a passagem para o além, é traduzida por imagens muito fortes, entre as quais a que termina o espetáculo, um enorme saco de plástico preto que vai sendo insuflado até ocupar todo o palco (será um saco de lixo, será essa a nossa sorte?). Não admira que no final a encenadora tenha sido valentemente vaiada e a cantora Lea Desandre ovacionada. Paris 02.2018 Opéra-Comique 3/5
Os protagonistas de Et in arcadia ego:
Jean-Philippe Rameau, música
Éric Reinhardt, livret
Phia Ménard, mise-en-scène
Christophe Rousset, maestro
Les Talens lyriques, orquestra
Les Éléments, coro